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| Para ler ao som de "A Child's Question, August", de PJ Harvey |
Sabe o que todos esses processos de luto mencionados acima têm em comum? Eles são muito mais dolorosos pra quem é introvertido. Confesso que às vezes eu acho bem legal essa coisa de sentir o mesmo afeto que sinto quando revejo velhas amizades após anos – isso é uma das maiores alegrias de ser uma pessoa introvertida: é como se as nossas relações não se desgastassem e ao reencontrar amigos antigos continuássemos exatamente do ponto onde paramos. Mas a vida não é assim e, quando você menos espera, aquela pessoa tão especial não está mais aqui neste mundo. Serei mais direto: simplesmente, do nada, aquela pessoa tão especial pra você que ficou aguardando uma data de reencontro (o famoso “um dia a gente marca”) pode ter morrido em um acidente fatal, ter tido sua vida encerrada por um vírus recém-descoberto antes da vacina estar pronta, ou ter sido vítima de um câncer agressivo e você só ficou sabendo por terceiros muito tempo após a morte.
Antes que você tome pra si a culpa por coisas assim, caso tenha experienciado eventos parecidos, tenho que te lembrar que todos nós estamos imersos em um mundo muito mais ruidoso de uns anos pra cá. Neste caso não me refiro a barulhos sonoros, mas sim distrações que excedem a capacidade cognitiva do ser humano de lidar – ou seja: estamos sobrecarregados de notificações. Sim, isso mesmo que você pensou: as inúmeras notificações de aplicativos de celular, e-mails, etc. Claro que sei que é possível desabilitar todas elas, mas nos dias atuais isso é equivalente a silenciar o problema, porque no fim das contas todos nós precisaremos lidar com pelo menos algumas destas notificações mais urgentes que recebemos diariamente a um nível alarmantemente insalubre. Isso mesmo: insalubre. Traçando um paralelo com a nossa evolução como espécie, o ser humano não foi feito pra lidar com essa enxurrada de estímulos. É um desgaste cognitivo colossal que pesa muito mais pra quem é de natureza introvertida.
Com certeza você já ouviu falar que “as pessoas mais quietas são as que têm as mentes mais barulhentas”. Esse é um daqueles ditados que, apesar de serem usados a torto e direito em tudo quanto é canto da internet (desde um post despretensioso em rede social até um artigo mais sério), é muito verdadeiro. Adicionando a minha própria experiência pessoal: depois de anos lidando com o embotamento afetivo, quando você finalmente fica livre dele, parece que o barulho mental fica muito maior. É bizarro. Talvez seja porque o cérebro se acostumou a um ritmo bem mais lento e agora mudou drasticamente após mais de uma década de embotamento? Pode ser. Independentemente do motivo real disso acontecer, é como se de repente houvesse um enxame de palavras extensas e detalhadas na sua mente e você tivesse que caçá-las rapidamente, e na ordem certa, pra conseguir explicar com clareza o que você quer dizer a alguém. Isso se torna ainda mais desafiador quando a pessoa que está te ouvindo pede pra você ser rápido e ir direto ao ponto (algo cada vez mais comum em tempos que prezam pela rapidez extrema e concisão afiada).
Enfim chegou a hora de juntar todo esse textão e explicar pra você onde quero chegar: some a tendência de introvertidos a procrastinar o cultivo de relações pessoais com um mundo imerso em notificações maiores do que nosso cérebro consegue lidar e por fim adicione uma pitada de sobrecarga cognitiva causada pelo simples fato de existir em um período da história que preza pela rapidez extrema e está pronta a receita: um belo banquete de ansiedade e stress com direito a burnout de sobremesa. Mas tudo isso também leva a outra questão que afeta inclusive as pessoas extrovertidas: o paradoxo da desconexão pessoal.
Não é novidade nenhuma que o ser humano está cada vez mais isolado desde o nascimento da internet. Este isolamento aumentou com a implementação da Web 2.0 e escalou progressivamente a partir da popularização das redes sociais, mas sinto que desde o começo desta década o negócio saiu de controle de uma forma que faria até o próprio Zygmunt Bauman (tão conhecido por ser crítico à fragilidade das relações humanas) ficar absolutamente horrorizado. A grande maioria das pessoas está imersa em telas o tempo todo, e o smartphone é a estrela principal deste verdadeiro show de horrores pra quem preza pelo contato real (e não digital) entre pessoas, gerando um paradoxo irônico de fazer até mesmo quem não gostaria de passar o tempo livre em ambientes digitais ter que ficar imerso no celular porque todo mundo ao redor não consegue deixar este aparelhinho de lado. E não, não culpo essas pessoas, já que é bastante conhecido o conceito de que o celular é “o novo cigarro” e seu funcionamento foi desenvolvido e aperfeiçoado ao longo de quase 20 anos desde sua criação pra ter gatilhos que tornam as pessoas adictas.
Esperança é a palavra final. Tenho esperança de que mais cedo ou mais tarde esse cenário mudará. Neste caso a esperança não é apenas algo utópico, mas sim uma possibilidade concreta, pois aos poucos mais e mais pessoas percebem o quão prejudicial tem sido essa imersão toda em um ambiente digital. Tem sido um “trabalho de formiguinha”, como dizem, mas acredito que eventualmente chegaremos lá. Quem me conhece bem pessoalmente sabe que são sou religioso, mas nem por isso deixo de ter fé. Torço pra que este seja apenas um momento extremamente turbulento que antecede uma calmaria. Veremos...

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